Histórias

 

 

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Romankoutze ficava na Ucrânia, eu até hoje ainda não achei no mapa. Duzentos, trezentos judeus… uma rua sem calçada, sem nada. A aldeia tinha uma só rua com casinhas pequeninhas e a maior casa era a da minha mãe porque ela tinha que cuidar de cavalos. Minha mãe dirigia o Correio do Czar que era entregue com cavalo.
Minha mãe com dezesseis anos não tinha nem pai nem mãe. Ela criou os irmãos e começou a fazer lá esse trabalho do Correio com dezesseis anos! O pessoal vinha a cavalo, chegava na casa da minha mãe, trocava de cavalo, comia e ia embora.

Naquele tempo era o feudalismo, então o Czar dava uma área pra um sujeito e dizia: – “Olha aqui, você toma conta disto e me paga tanto de impostos.” O sujeito que ia receber os impostos, uma parte ele embolsava. Cada zona, cada feudo, era dirigido por algum parente ou alguma pessoa nomeada pelo Czar. E minha mãe conhecia o primo do Czar.

O nome da minha mãe era Sheindl, depois aqui virou Sofia. Bom, ela tinha esse negócio do Correio e tinha um primo do Czar que tomava conta daquela zona toda que gostou dela, então ele protegeu os judeus lá. Não tinha pogrom, porque era só a minha mãe mandar um recado pra ele… Parava na hora! Porque ele era amigo dela.
Olha, para o judeu numa cidadezinha na Rússia era importante naquele tempo você ter um protetor – era uma maravilha! Porque o pessoal era perseguido mesmo! Uma meia dúzia de cossacos enchia a cara e dizia: – “Ah, vamos bater nos judeus.” Era assim! À toa! De repente!

Quase todos na aldeia eram judeus e minha mãe dava comida pra esse pessoal. Todos os pobres iam comer na casa da minha mãe. Ela fazia um montão de pãezinhos de manhã e praticamente a metade ela distribuía. Minha mãe era um pouquinho especial, ela era bem esperta. Não tinha muita escola – não tinha escola lá, a pessoa aprendia… Minha mãe aprendeu a ler ídish, escrevia ídish. Quem nascia lá, a primeira língua que eles aprendiam era ídish. Os judeus entre si falavam ídish. Eles sabiam russo, mas todos falavam ídish .

Meu pai trabalhava com tabaco. Acho que vocês não sabem, mas na Ucrânia tabaco era um monopólio do governo então era proibido trabalhar com tabaco, mas como ele se casou com a minha mãe ninguém mexia com ele. Naquele tempo a minha mãe tinha dezenove, vinte anos e estava criando os irmãos, inclusive a irmãzinha, minha tia Ana Teperman. E a mamãe sempre contava que ela levava cada susto porque eu comecei a andar com nove meses e eu saía debaixo dos cavalos lá na lama e ela correndo atrás de mim: – “Yossel !”

Então isso foi até 1914, porque eu vim pra o Brasil em ’14 – eu tinha um ano e meio. Aí nós viemos num navio… Vocês sabem, naquele tempo quando se viajava se levava tudo o que tinha, travesseiro, panela… Primeiro, porque ninguém tinha dinheiro, segundo, eles não sabiam se tinha no Brasil – se tinha panela, não é? Eles não sabiam como é que eles iam comprar.

Agora, a coisa mais fantástica pra mim – e até hoje o que mais me impressionou – é que esse pessoal saía da Rússia, da Polônia, seja de onde for, não falavam uma palavra de outra língua, não tinham dinheiro, e iam para um outro país! Eles não sabiam se tinha alguém pra recebê-los, se eles iam ser mortos, o que ia acontecer! Não sabiam se um selvagem ia comê-los ou qualquer coisa… (risos) E não é só o judeu! É o árabe, é seja quem for que saiu do país dele sem um tostão, sem saber a língua e… Tudo era melhor do que onde ele estava! Que a vida dele era tão ruim lá que qualquer mudança era um melhoramento da vida dele.

E os judeus também queriam sair de lá pra não servir o exército. Você imagina como o soldado judeu era tratado no exército? Era terrível! Eles teriam servido, mas pra ser tratado daquele jeito… Então eles faziam qualquer coisa pra ir embora.

Nós viemos num navio alemão, estourou a guerra de ’14, os ingleses capturaram o navio, levaram de volta; nos puseram num navio inglês. Viemos num navio inglês.
– Quem mais veio da minha família? Minha mãe e essa minha tia que é a mãe da Malvina. Ela veio com cinco filhos, isso no nosso navio. E tem várias outras pessoas que até hoje eu não sei direito. Por exemplo, tem esse fotógrafo Wolfenson, parece que a família dele também veio mais ou menos nesse ano nesse navio. E outro era o Silvio Zilber que é um ator. Agora eu não sei bem essa parte… parece que a minha mãe namorou um tio dele.

Cinquenta anos depois, eu estava fazendo uma peça de teatro e o Silvio trabalhou na peça – era uma peça com o Raul Cortez dirigido pelo Antunes – e eu mencionei o nome Zilber em casa. Quando minha mãe ouviu, ela disse: – “Pergunta a ele se ele é parente do David Zilber, de tal lugar” que era lá da nossa terra. O Silvio disse: – “É, eu tenho um tio David que é de lá.” Aí a minha mãe disse: – “Então diga pra ele que eu quero a minha fotografia de volta!” Ela tinha certeza que quase cinquenta e cinco anos depois o homem ainda andava com a fotografia dela no bolso! (risos)

Quando nós chegamos aqui fomos morar em Taubaté e ficamos lá alguns anos. O primeiro naquela cidade foi meu tio Moyses (Gandelman), que era irmão da minha mãe. Porque ele veio, não sei. Ele era muito inteligente, então ele deve ter vindo porque alguém falou: – “Olha, tem um país assim, assim, que ken machen a lebn .” (pode-se ganhar a vida). Se é possível ken machen a lebn então eles vinham, não tinham nada que perder.

Acho que meu pai começou a trabalhar em Taubaté vendendo, carregando nas costas… bom, eu não me lembro essa parte. Eu me lembro quando o meu pai já tinha uma loja de móveis e nós moramos no fundo da loja. Então era bonitinho porque meu pai tinha um cochezinho com um cavalo para o empregado fazer cobrança, e depois, todo dia o cavalo tinha que entrar e passar pela loja pra ir lá pros fundos porque tinha um quintal. E tinha o Edmundo… O Edmundo era um preto que cuidava do cavalo e eu ficava olhando – até hoje eu me lembro! Olha, são quase oitenta anos!

– Se tinha sinagoga em Taubaté? Não, essa cidade não tinha nada. Mas em todo lugar sempre tinha assim um homem que era mais líder… O pessoal ia na casa dele, fazia as rezas, Shabat , Rosh Hashone, e claro no ‘High Hollidays’ [Grandes Festas]. No mundo inteiro sempre tinha. Quando era uma cidade pequena ou tinha algum problema, sempre tinha um ou dois que sabiam e ensinavam os outros. Quer dizer, onde não tinha escola as crianças aprendiam a ler e escrever na casa de alguém.
A gente mudou pra São Paulo em 1917 porque depois que o meu pai ganhava bem ele começou a fazer negócios em São Paulo. Aqui tinha mais mercado, mais campo, e já conhecíamos mais gente. Tinha a família dos Tabacow, os Teperman, os Gandelman, os Klabin, os Lafer… era um grupo. Nós éramos um grupo. Era a ‘sociedade’ (risos) – a sociedade dos judeus.

Nós fomos morar no Brás. Em 1918 houve a gripe Espanhola, mas aquela gripe morria gente na rua, assim! E o único que não pegou nada no meu quarteirão fui eu. O Brás estava cheio de imigrantes, estava cheio de italianos. – Como era a convivência? Era muito, muito agradável – olha, era formidável!

Mais ou menos em 1920 meu avô paterno veio fazer uma visita. Ele não falava português e eu não falava russo. Todo dia ele falava comigo em ídish, então eu aprendi com meu avô.

Em 1923 fomos para os Estados Unidos. Era muito gostoso em New York naquela época, sabe? Moramos primeiro em Brooklyn, depois nós fomos para o Bronx. Todos lá eram judeus. Lá eu estudei, aprendi a Bar Mitzvá – foi nos Estados Unidos que eu fiz meu Bar Mitzvá. Agora, o triste na nossa religião é que a gente aprende a rezar numa língua que a gente não entende. Então você é criança, aprende aquilo de cor, depois esquece e não se interessa porque não sabe nem o que está falando.
Isso é um erro! Você vê, até os católicos mudaram o latim – é a mesma coisa! Vamos manter o hebraico, tudo bem, mas o ídish é uma língua tão expressiva, tão divertida, sabe? E aqui quase não falam.

Eu vou dizer uma coisa: O triste aqui no Brasil é quão pouco os filhos aprendem ídish, porque quando eu morei em New York – estou falando de 1923 – todo mundo falava ídish! Eu estou dizendo os judeus. Eles falavam ídish em casa, e as crianças, mesmo as que nasceram nos Estados Unidos, aprenderam. Todos falavam ídish, todo mundo sabia! E olha, foi uma riqueza!

Por que fomos para os Estados Unidos? Porque meu pai teve uma oportunidade de negócios. Meu pai tinha muito jeito, ele chegava num lugar e logo aprendia o negócio. Aqui ele tinha negócio de móveis… ele foi lá, chegou lá e aprendeu a trabalhar com peles. Sempre em peles tem duas profissões: o que corta e o que costura. O cortador ganha mais, e o meu pai naturalmente virou cortador. Aí ele inventou uma máquina para cortar peles, uma máquina que cortava, assim, cinquenta pedaços de uma vez, então ele fez uma fábrica. Ele tinha uma fábrica de peles nos Estados Unidos.

Aí, em 1929 teve a Depressão. Agora… vocês não imaginam o que é uma Depressão! O pessoal aqui fala de crise, isso aqui era brincadeira! Em ‘29 toda esquina tinha um cara com uma caixinha e umas maçãs para vender. Toda esquina! Eu me lembro!

Você imagina o que caiu a venda de peles, não é? Mas sabe o que acontecia? Se consertava muito as peles. É que nem automóvel: quando não se vende carros tem de consertar os velhos. Então tinha bastante trabalho consertando, e meu pai fazia até em casa. Mesmo na época da Depressão meu pai continuou com as peles. O meu pai tinha jeito, precisa tirar o chapéu! Ele sempre arrumava um trabalho. Quando trabalhava ganhava razoàvelmente bem, dava pelo menos para comer.

Eu também era empreendedor, eu vendia doces: vendia um doce por cinco centavos. Então eu aluguei uma loja numa rua principal – estavam todas vazias! Eu pagava um dólar por dia, vendia cinquenta doces: era dois e cinquenta. Eu saía com cinquenta, sessenta centavos por dia de lucro. Estava bom.

Se alguém nos ajudou? Olha, é o seguinte: minha mãe tinha uma irmã que foi da Rússia direto pra os Estados Unidos e até moramos com ela uma época. Também tem isso, quando o negócio ia mal duas famílias se juntavam no mesmo apartamento.

Nós ficamos nos Estados Unidos até 1935, aí estava difícil… O pessoal pensa que a Depressão foi só em ’29 – a Depressão foi até a Guerra! Até ‘40, ‘41. Aliás, em ‘42 ainda tinha Depressão! Então a minha mãe ficou em cima do meu pai: – “Ah, vamos voltar para o Brasil, vamos voltar, vamos voltar…” E um dia meu pai disse: – “Sabe de uma coisa? Vamos voltar!”

(arquivo histórico judaico brasileiro)

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